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  Henrique Padeiro

Eu já morei aqui / Yo ya moré aquí

 

 

                             

 

 

 

Começo por convidá-lo a para de ler este texto.

Agora recomendo que olhe para os seus dedos, agora as mãos e, vagarosamente os braços.

Os meus dedos são os dedos do mundo, as minhas mãos a terra que pisas e os meus braços a linha da tua vida.

A minha pele é negra como a noite sobre a noite e pela noite e nela me fundo.

A noite é o meu dia.

Hoje vesti o meu vestido cor-de-rosa.

O meu vestido cor-de-rosa é lindo como todos os vestidos cor-de-rosa que nunca vesti na Guiné.

Sou uma princesa.

A princesa de quem quiser.

O meu principiado é a rua onde trabalho e os meus súbditos os carros que passam.

Nas barbas da minha cidade vive a sua composição social, fervilhante de actividade humana. Do Boticário ao Marceneiro, dos amigos dos amigos deles, todos me conhecem.

Na minha casa cabe a minha cidade inteira.

Antigamente não era assim, na Guiné não era assim.

Não havia viaturas e a sanzala deixava a mosca entrar.

Branco, amarelo, verde, e laranja, todo o tipo de flores silvestres triunfam na beira da estrada de pó, erguem-se senhoras de si, seguras e confiantes como a mão de um cego.

E a noite. Ah a noite na Guiné é diferente da noite do resto do mundo, as pessoas na Guiné alimentam-se de noite, de estrelas, por vezes, nem sempre, de constelações inteiras.

Três bois muito magros abanam o rabo à mosca, mexem muito as orelhas e, defecam.

Corre o curandeiro solitário nas suas falantes lengalengas a adivinhar o futuro no esterco dos animais, remexe com um pau fino, suspende a respiração, olha para o ar e, suspira timidamente.

Tarda a aparecer a chuva.

A malfadada chuva.

Ainda bem que o mestre António me trouxe para a Europa para trabalhar.

No meu trabalho não há sequer tempo para apresentações, tiro a cueca, vem rápido que a noite é jovem.

O ritual é o mesmo do curandeiro falante.

Terminado o trabalho, ajoelho e duas lágrimas paralelas, pretas, grossas, descem pela noite sobre a noite e nela se fundem.

Divertidas, vitrais e trágicas.

De repente aparece um carro cinzento muito rápido, com os vidros muito escuros.

Dei comigo preocupada.

Mas porque hei-de estar preocupada?

Estou-me borrifando!

Ajeito o vestido, visto a cueca.

Meu decote não mostra, dispõe.

Os meus seios são do tamanho do luar na Guiné, as minhas pernas fintam galáxias inteiras, a minha anca suspira.

Minha meia vermelha de rede larga apanha o peixe que papai morreu a tentar apanhar na Guiné.

No meu trabalho não há sequer tempo para apresentações, tiro a cueca, vem rápido que a noite é jovem.

A cidade esventrada na noite repousa sobre a minha vida suspensa.

Uma casa, um luar, uma noite, é ai que eu vivo, num lugar diferente, uma espécie de semi-espaço do absurdo no lugar de ninguém.

Eu não sou ninguém.

Sou como a barata que sobrevive ao ataque nuclear e fica para contar a história.

No fundo da rua um arco-íris desbotado anuncia a chuva próxima.


 

 

 


 

Comienzo por invitar la para de leer este texto.
Ahora recomiendo que mire para sus dedos, ahora las manos y, lentamente los brazos.
Mis dedos son los dedos del mundo, mis manos la tierra que pisas y mis brazos la línea de tu vida.
Mi piel es negra como la noche sobre la noche y por la noche y en ella me fundo.
La noche es mi día.
Hoy vestí mi vestido color-de-rosa.
Mi vestido color-de-rosa es lindo como todos los vestidos color-de-rosa que nunca vestí en Guinea.
Soy una princesa.
La princesa de quien quisiere.

Mi principiado es la calle donde trabajo y los míos súbditos los coches que pasan.
En las barbas de mi ciudad vive su composición social, fervilhante de actividade humana. Del Boticario a Carpintero, de los amigos de los amigos de ellos, todos me conocen.
En mi casa cabe mi ciudad entera.
Antiguamente no era así, en Guinea no era así.
No había vehículos y la sanzala dejaba la mosca entrar.

Blanco, amarillo, verde, y naranja, todo el tipo de flores silvestres triunfan en la orilla de la carretera de polvo, se irguen señoras de sí, seguras y confiadas como la mano de uno invidente.

Y la noche. Ah la noche en Guinea es diferente de la noche del resto del mundo, las personas en Guinea se alimentan de noche, de estrellas, por veces, ni siempre, de constelaciones enteras.
Tres bueyes mucho delgados abanam el rabo a la mosca, mexem mucho las orejas y, defecan.
Corre el curandero solitario en sus hablantes lengalengas la adivinar el futuro en el estiércol de los animales, revuelve con un palo fino, suspende la respiración, mira para el aire y, suspira tímidamente.

La malfadada lluvia.
Menos mal que el maestro António me trajo para Europa para trabajar.
En mi trabajo no hay siquiera tiempo para presentaciones, tiro el calzoncillo, viene rápido que la noche es joven.
El ritual es el mismo del curandero hablante.
Terminado el trabajo, arrodillo y dos lágrimas paralelas, negras, gruesas, bajan por la noche sobre la noche y en ella se funden.
Divertidas, vitrales y trágicas.

De golpe aparece un coche ceniciento muy rápido, con los vidrios mucho oscuros.
Di conmigo preocupada.
Pero porque he-de estar preocupada?
Me estoy rociando!
Ajeito el vestido, visado el calzoncillo.
Mi escote no muestra, dispone.
Mis senos son del tamaño de la luz de luna en Guinea, mis piernas fintam galaxias enteras, mi anca suspira.

Mi media roja de red ancha coge el pescado que papá murió a intentar coger en Guinea.
En mi trabajo no hay siquiera tiempo para presentaciones, tiro el calzoncillo, viene rápido que la noche es joven.
La ciudad esventrada en la noche reposa sobre mi vida suspensa.
Una casa, una luz de luna, una noche, es ai que yo vivo, en un lugar diferente, una especie de semi-espacio del absurdo en el lugar de nadie.
Yo no soy nadie.
Soy como la barata que sobrevive al ataque nuclear y queda para contar la historia.

En el fondo de la calle un arco-iris desvaído anuncia la lluvia próxima.

henrique.padeiro@gmail.com

 

 

Alborques

Partners:

Watercolor Painting Art

Doni´s Travels

João Werner

 
   

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